Devo falar ou ficar em silêncio num processo crime?

Se foi chamado a prestar declarações, esta é provavelmente a dúvida mais importante neste momento. Deve falar? Ou é melhor não dizer nada? Na prática, esta decisão não é teórica. Tem impacto direto no processo. E, em muitos casos, é aqui que tudo começa a complicar.

Devo falar ou ficar em silêncio num processo crime?

Não existe uma resposta única. Depende do contexto do processo, da prova que já existe e do momento em que presta declarações. Ainda assim, há um ponto que deve ter presente desde o início. No processo crime, o arguido não tem de se incriminar. Pode falar, mas também pode ficar em silêncio. Essa escolha deve ser consciente. Não deve resultar de impulso nem de pressão do momento.

O que acontece se decidir falar

Quando decide falar, o processo passa a integrar aquilo que disser. O Ministério Público, muitas vezes através da polícia, recolhe essas declarações e utiliza-as na investigação. Além disso, o tribunal vai analisar essas palavras mais tarde, em conjunto com os restantes elementos de prova. Na prática, isto significa que qualquer incoerência pode ganhar importância. Uma explicação mal construída ou uma contradição pode enfraquecer a sua posição. Aliás, vejo com frequência situações em que o problema não está nos factos. Está na forma como o arguido decidiu explicá-los.

Se quiser enquadrar melhor este risco, pode ler Falar com a polícia sem advogado: deve fazê-lo?

O que acontece se optar pelo silêncioA propósito do tema "falar ou ficar em silêncio processo crime", temos uma imagem em alto contraste (preto e branco) de um interrogatório.

Se optar pelo silêncio, mantém-se protegido. Isto claro, se for arguido. Pois, o arguido não tem de responder a perguntas nem de colaborar com a sua própria incriminação. O tribunal não pode interpretar o silêncio como uma admissão de culpa. Por isso, esta opção evita contradições e impede que introduza elementos que o prejudiquem. Ainda assim, o silêncio não resolve tudo. Em alguns casos, pode deixar pontos por esclarecer que mais tarde assumem relevância.

Por isso, a decisão deve ter em conta o processo concreto. Se estiver nesta fase, faz sentido rever Tenho de responder ao Ministério Público num processo crime? Posso ficar em silêncio?

O erro mais comum nesta decisão

O erro surge quase sempre da mesma forma. As pessoas falam demasiado cedo. Muitas acreditam que, se explicarem tudo, resolvem o problema. Outras sentem pressão para responder no momento. No entanto, o processo crime não funciona assim. Cada palavra entra no processo e fica lá. O tribunal analisa essas declarações mais tarde, em conjunto com toda a prova.

Quando faz sentido falarA propósito do tema "falar ou ficar em silêncio processo crime", temos o Dr. Joel Oliveira Santos, Advogado Criminal e especialista em processos crime, em tribunal.

Falar pode fazer sentido. No entanto, isso depende de uma condição essencial. Deve saber o que está em causa no processo. Se já conhece a prova existente, consegue avaliar melhor o impacto das suas declarações. Se não conhece, corre o risco de dizer algo que o prejudique sem perceber. Por isso, falar só faz sentido quando existe estratégia. Na minha opinião profissional, uma decisão precipitada pode ter consequências que já não se conseguem corrigir. Por isso mesmo, é que não deve precipitar-se e falar sobre um assunto cujos contornos desconhece. Ou seja, se foi detido (por exemplo) e não conhece exatamente o que têm contra si, deve evitar ao máximo prestar declarações naquele momento. Isto, precisamente, para evitar “falar” sobre um assunto que não conhece na totalidade.

Se ainda não tem esse enquadramento, pode começar por ler Fui chamado ao Ministério Público: o que acontece num processo crime.

Conclusão

A escolha entre falar ou ficar em silêncio num processo crime não tem uma resposta automática. Depende da situação concreta. O arguido pode falar. Pode ficar em silêncio. Ambas as opções são legítimas. No entanto, cada uma tem consequências. Na prática, vejo muitos processos complicarem-se neste momento. Não por causa dos factos, mas por causa de decisões tomadas sem estratégia.

Se foi chamado a prestar declarações, não deve decidir de forma isolada. Antes de falar ou de optar pelo silêncio, deve perceber exatamente em que posição se encontra e quais são os riscos envolvidos. Se vai prestar declarações em breve, não avance sem perceber o impacto do que pode dizer. Este é um dos momentos mais sensíveis do processo e uma decisão errada aqui pode ser determinante.

Se tem dúvidas sobre o que deve fazer no seu caso concreto, faz sentido esclarecer essa questão antes de falar. Uma análise prévia do processo permite-lhe decidir com segurança e evitar erros que mais tarde já não têm correção. Na prática, quem toma esta decisão com informação e enquadramento parte em vantagem. E isso, muitas vezes, reflete-se diretamente no desfecho do processo.

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